Baseada no capítulo 4 “Sociedades e Sistemas Econômicos” do livro “A Grande Transformação” de Karl Polanyi
O autor traz neste texto diversos princípios que questionam teorias anteriores sobre a natureza do espírito econômico do ser humano e de sua natureza propensa a ganhos e lucros.
Inicialmente, ele argumenta que sempre houveram manifestações econômicas. O ser humano, segundo Polanyi, tem como natureza a socialização e por isso ele sempre desenvolveu sistemas que lhe proporcionasse a possibilidade de trocas. Porém, nenhum sistema se baseia no ganho e no lucro individual como móvel de suas trocas.
As trocas, segundo Polanyi, seguem em outras sociedades outros princípios, que esses sim seriam essenciais para a manutenção do homem como ser social. Princípios que não visam tão somente sua sobrevida, mas principalmente, mostram que o homem age primeiramente para salvaguardar sua posição social, suas exigências pessoais e todo seu patrimônio sociais, que são segundo ele, muito mais importantes para o ser humano que a simples acumulação de bens materiais.
Para manter seus laços sociais o ser humano, os homens seguem padrões morais, desenvolvem atividades de acumulação e distribuição de tudo que é necessário para a manutenção coletiva. Graças a esta noção, o ser humano se organizou e se organiza em sociedades onde não há exata noção de lucro e até mesmo ausência riqueza, entrando tão somente no mérito de se acumular àquilo que dá ao indivíduo prestígio social, baseado em princípios das tradições herdadas de seus antepassados.
Não que o ser humano seja comunista por essência, pois são relações de reciprocidade e redistribuição, os quais em geral se baseiam estas práticas sociais.
Como exemplo do argumento o autor cita o exemplo do kula. O kula é um sistema de trocas utilizado nas ilhas Trobriand da Melanésia Ocidental.
Este é um sistema que se baseia numa distribuição circular de mercadorias, fundamentado na magia, onde não há a noção de posse e os bens circulam livremente de uma ilha a outra do arquipélago sem acumular bens, mas baseado no princípio da reciprocidade.
Em outras sociedades os bens (essencialmente alimentos) são produzidos e entregues a chefes que se responsabilizam por armazenar e redistribuir os bens pela tribo.
Porém, segundo Polanyi, “Princípios de comportamento como esse, contudo, não podem ser efetivos a menos que os padrões institucionais existentes levem à sua aplicação.”, esses padrões precisam levar a reciprocidade dos membros de uma sociedade a terem uma centralidade de princípios e uma simetria nas ações.
O kula é um exemplo de uma atividade que possui simetria, visto que possui regras claras e princípios que são passados geração pós geração.
Havendo essa simetria, nenhuma ação individual de uma interferência no sistema econômica é racionalmente viável. A divisão do trabalho fica assegurada e as obrigações econômicas são como se fossem obrigações sociais, que se realizam naturalmente. Segundo Polanyi, “o sistema econômico é mera função da organização social”.
Polanyi afirma que “O selvagem individualista, que procura alimentos ou caça para si mesmo ou para sua família nunca existiu” e “A necessidade de comércio ou de mercado não é maior do que no caso a reciprocidade ou da redistribuição”. Sendo assim é possível comprovar a idéia de que os interesses sociais do indivíduo são maiores que suas necessidades comerciais e individuais, retirando do homem o fardo de ser um homo economicus e trazendo-o como um ser social. Sendo assim, o egoísmo capitalista seria algo socialmente criado, o que dá margem a interpretação de que pode ser socialmente destruído.
Porém a questões que não ficam claras, como por exemplo, se a maximização não é natural dos indivíduos o que justificaria a ascensão do sistema capitalista? Quais teriam sido os fatores que motivaram tamanha mudança do ser humano de um paradigma social para outro? Quais seriam as transformações sociais que imprimiram um caráter tão diferente ao indivíduo?
Talvez tenhamos cometido o maior erro da história, deixar princípios de harmonia social para abraçar o incerto e artificial lucro. Substituir relações sociais por relações mercantis.
Talvez seja esse o abismo em que a humanidade resolveu cair.